O sonho começou com o som do vento — um vento espesso, que trazia o peso das coisas não ditas. No centro de uma praça sem nome, um homem estava com a corda ao pescoço. A multidão era muda, feita de sombras que pareciam respirar. À frente dele, o enforcador: um rosto sem traço, uma voz que não tremia.
— Ele deve morrer, disse o enforcador.
A sentença não era de ódio, mas de destino. E o homem, os olhos abertos como feridas, sussurrou apenas:
— Mãe.
Mas não houve resposta. O chamado atravessou o ar e se perdeu como uma prece esquecida. A mãe não ouviu — talvez porque não estava lá, talvez porque já habitava o mesmo silêncio para onde ele ia.
Acordar de um sonho desses é como acordar dentro do próprio peito. Freud diria que a corda é o símbolo da culpa, o nó que a consciência tece quando não suporta mais a própria liberdade. Jung talvez visse no enforcador a sombra — o arquétipo sombrio que exige a morte do ego antigo para que um novo surja. O “deve morrer” seria, então, o decreto da transformação.
Mas há algo de mais humano, e mais triste. Chamar pela mãe é o último ato de quem se recorda da origem, o retorno ao ventre na hora do fim. É o grito do inconsciente que deseja abrigo, não salvação.
Talvez o sonho não fale da morte física, mas de uma morte interna: a de uma parte que já não serve, que pesa, que precisa ser sacrificada para que o ser continue. O enforcador, afinal, pode ser apenas o próprio sonhador — cumprindo a tarefa que o tempo impõe, de matar versões antigas de si mesmo.
E quando o corpo pende e o silêncio se instala, o vento volta. Já não há praça, nem multidão. Há apenas o eco longínquo do chamado materno, que não foi ouvido porque já foi atendido antes mesmo de ser feito. Pois toda morte — no sonho ou na vida — é um retorno à mãe maior: a Terra, o esquecimento, o que nos recebe sem perguntar o nome.
O sonho não anuncia o fim. Ele revela a urgência de nascer de novo.