No sonho, a tarde não tinha cor — era um véu de cinza pousando sobre o mundo.
No centro de tudo, um homem, imóvel, com o pescoço entregue ao laço do destino.
O vento roçava as madeiras da forca como quem toca um instrumento antigo.
E diante dele, o enforcador — sem rosto, sem tempo — dizia com voz de pedra:
— Ele deve morrer.
As palavras caíram pesadas, sem eco,
como se o céu tivesse engolido o som do perdão.
O homem ergueu os olhos, e o mundo encolheu dentro de uma lágrima.
— Mãe... — chamou, com a voz que ainda restava.
Mas a mãe não ouviu.
Estava longe — talvez dormindo dentro do passado,
talvez dentro dele mesmo, onde ninguém mais chega.
O chamado dissolveu-se no ar, um fio que se partia entre o querer e o nunca mais.
Freud, se sonhasse este sonho, diria: é o ego que se enforca no próprio desejo.
Jung, talvez, visse ali a dança antiga da sombra e da luz,
a alma despindo uma pele para que outra possa respirar.
E eu — que apenas observo — penso que toda corda é um umbigo ao contrário,
ligando-nos não ao ventre que dá a vida,
mas à escuridão que nos ensina o seu preço.
O homem morre, mas não cai.
Paira — como se a morte fosse apenas uma pausa entre dois sopros.
A mãe, invisível, talvez o acolha em silêncio.
O vento, cúmplice, embala o corpo e o leva devagar.
Porque morrer, no fundo, é voltar para casa.
E toda casa, mesmo perdida no tempo, tem o nome de mãe.