A fé, afinal, é isso: enxergar no improvável um sinal de cuidado.

By Labels: at

 



Era outubro, e as estradas se enfeitavam de romeiros: passos cansados, mãos erguidas, promessas carregadas no peito como pequenas chamas. Ao longe, a Basílica de Aparecida se erguia como um farol de fé no meio do vale.

Sempre me impressionou essa cena: multidões diferentes — ricos e pobres, velhos e crianças, homens de terno e mulheres descalças — todos caminhando para o mesmo ponto, como rios que buscam o mar. E no centro desse mar, uma imagem pequena, frágil, de barro escurecido. Nossa Senhora Aparecida.

Penso na história de sua aparição: pescadores que lançaram as redes vazias e, de repente, encontraram a estátua partida, primeiro o corpo, depois a cabeça. Só então os peixes vieram em abundância. Que mistério há nesse gesto? Talvez o milagre não esteja apenas no peixe que encheu o barco, mas na esperança que encheu aqueles homens. A fé, afinal, é isso: enxergar no improvável um sinal de cuidado.

Hoje, diante da imagem coroada, vejo que sua força não está no ouro nem nas joias, mas no que desperta em cada coração. A padroeira é, sobretudo, um espelho: nela, cada devoto vê sua própria dor acolhida, sua própria prece transformada em canto.

Nossa Senhora Aparecida é a lembrança de que o sagrado pode surgir do barro simples, daquilo que parecia descartado. É mãe que não se impõe, mas se deixa encontrar — como quem se revela na delicadeza de um gesto, no consolo de um olhar.

E, ao sair da basílica, entre as velas acesas e as vozes que murmuram “obrigado, mãe”, sinto que a fé é justamente isso: um laço invisível que une estranhos em comunidade, uma rede onde ninguém precisa carregar sozinho o peso da vida.

Back to Top