Parábola: Os sonhos podem ser lâmpadas, mas também labirintos.

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Ela se chamava Nereida, filha das águas profundas, guardiã de silêncios submersos. Enquanto o mundo marinho seguia sua ordem tranquila, ela vivia inquieta, como se cada onda lhe murmurasse que havia mais além. O fundo do mar, com todas as suas riquezas e mistérios, não bastava. Nereida desejava o impossível: caminhar sobre a terra, sentir o peso dos próprios passos, respirar o ar que acariciava os homens.

Mas os sonhos, quando intensos, trazem consigo um preço. Para alcançar a superfície, Nereida aceitou a barganha de uma bruxa marinha. Recebeu pernas, mas perdeu sua voz — a essência daquilo que a tornava única. Caminhou entre humanos, conheceu o amor, mas carregava a ausência de si mesma. Sua liberdade veio vestida de mutilação.

E aqui repousa a parábola: quantas vezes, em nome de um desejo ardente, sacrificamos aquilo que nos define? Quantos de nós negociamos talentos, silêncios, verdades, apenas para caber num ideal que nos fascina? Quantas vozes se perderam para conquistar lugares que não acolhem a alma inteira?

Nereida não é apenas uma sereia. É a imagem de cada ser humano dividido entre o impulso de transcender e o risco de perder-se na travessia. Ela nos recorda que os sonhos podem ser lâmpadas, mas também labirintos. Que às vezes desejamos ser “outros” quando, na verdade, o maior gesto de coragem seria habitar plenamente quem já somos.

E então, resta a pergunta que ecoa como canto antigo: o que você tem entregue em troca de seus desejos? Qual parte de si mesmo se calou para conquistar aquilo que julgava essencial? Até que ponto a liberdade compensa, se conquistada ao preço da própria voz?

Porque talvez o verdadeiro encontro com a superfície não esteja em abandonar nossas profundezas, mas em aprender a habitá-las sem medo, transformando-as em asas que nos elevam sem que precisemos trair o que nos faz inteiros.




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