Parábola: Não é destruir a escuridão, mas abraçá-la até que nela brote luz

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Havia uma jovem e sua maior virtude não era a doçura, mas a coragem de olhar além do óbvio. Enquanto os olhos da aldeia se encantavam apenas com superfícies polidas, ela pressentia que a vida guardava segredos no invisível. Buscava em livros, em silêncios, em sombras, uma verdade que a aparência jamais oferecia.

E havia a Fera. Não apenas um corpo marcado por maldição, mas um espírito carregado de feridas, uma alma trancada em castelo interior. Ele não temia espadas, mas o julgamento. Não se escondia do mundo por ser monstruoso, mas por acreditar ser indigno de amor. Em suas garras pesavam séculos de rejeição; em seus olhos, a esperança tímida de ser visto.

O encontro entre ambos não foi choque de opostos, mas reencontro de partes. a jovem ousou enxergar onde todos desviavam o olhar. E assim, tocou não apenas a Fera diante de si, mas a fera que habita em cada ser humano: aquela parte que julgamos feia demais, frágil demais, sombria demais para ser mostrada.

Pois dentro de todos nós existe essa dualidade: a superfície que oferecemos ao mundo e a criatura que escondemos em silêncio. E talvez o amor verdadeiro — seja de outro, seja de nós mesmos — não seja negar a fera, mas acolhê-la. Não é destruir a escuridão, mas abraçá-la até que nela brote luz.

A maldição não se quebra com espadas, nem com feitiços grandiosos. Rompe-se no instante em que alguém ousa ver além da máscara, no instante em que a própria alma se permite dizer: “eu sou mais do que minhas cicatrizes”.

E assim, a parábola sussurra: que feras você ainda mantém acorrentadas em sua própria torre? Que partes suas imploram, em silêncio, por um olhar de aceitação? Talvez a maior beleza seja exatamente essa: transformar o medo em ternura, a rejeição em pertença, a fera em humano — e o humano em inteiro.

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