Há uma janela aberta dentro de você.
Ela dá para um inverno manso, desses que não ferem, apenas silenciam. A neve cai como o tempo: sem pressa, sem pedido de licença. Cada floco é uma memória que não grita, apenas pousa.
Você está ali, mesmo que não perceba de imediato. Está no corpo pequeno que se abandona ao abraço. Está também no corpo antigo que sustenta. Porque em algum ponto da vida, todos fomos acolhidos e todos, um dia, seremos abrigo.
A velha cadeira amarela não é móvel. É trono. Não de poder, mas de permanência. Ali se senta quem já aprendeu que o mundo não se vence, se atravessa. Os óculos não servem para ver melhor, servem para suavizar. Para olhar sem dureza aquilo que já foi vivido demais.
O abraço não é gesto, é pacto. Um acordo silencioso entre gerações que nunca se disseram tudo, mas disseram o essencial: “fica”. Fica enquanto o frio passa. Fica enquanto o mundo lá fora insiste em ser vasto demais. Fica porque aqui, por um instante, nada falta.
As luzes na janela não celebram datas. Celebram resistência. Pequenos sóis domésticos dizendo que a ternura ainda existe, apesar do barulho, apesar da pressa, apesar da ideia equivocada de que crescer é se afastar.
E você, leitor, não observa a cena. Você entra nela. Sente o peso doce do corpo que confia. Sente o cansaço digno de quem já carregou muitos invernos. Percebe, talvez com desconforto, que o futuro não está à frente, mas circula. Ele retorna em gestos simples, em mãos que seguram outras mãos.
Essa imagem não fala de infância. Fala de continuidade. Fala de um mundo que só faz sentido quando alguém segura alguém enquanto a neve cai. E diz, sem piedade para o cinismo moderno: sobreviver não é suficiente. É preciso aquecer.