Há pelo menos dez anos, o cão comunitário conhecido como Orelha fazia da Praia Brava, em Florianópolis, um território mais humano. Não porque fosse homem, mas porque lembrava aos homens aquilo que insistem em esquecer: a convivência possível, a confiança sem contrato, o afeto sem assinatura. Orelha não era de ninguém — e, justamente por isso, era de todos. Circulava como um rito diário, um ponto de costura entre passos apressados e manhãs salgadas. Era o cão que ensinava, sem discurso, que a comunidade existe quando alguém cuida do que não é seu.
Então veio o corte abrupto. A notícia, seca como um laudo, espalhou-se: a Polícia Civil de Santa Catarina investiga a responsabilidade de quatro adolescentes em uma série de atos infracionais na Praia Brava. Entre eles, as agressões que levaram à morte de Orelha. O país parou por um instante — e esse instante foi um espelho incômodo. Porque não foi “apenas” um cão. Foi o pacto invisível que se rompeu.
Na psicanálise, chamamos de acting out quando a palavra falha e o corpo fala em violência. A adolescência, esse terreno movediço entre o desejo e o limite, é fértil para o gesto que explode antes do pensamento. Mas explicar não é absolver. Compreender não é anestesiar a responsabilidade. O que se viu ali foi a cena clássica do grupo como álibi — a desindividualização que dilui o eu no nós, que enfraquece o superego e transforma a crueldade em espetáculo. A psicologia social já nos alertou: em bando, a consciência emagrece.
A psiquiatria nos lembra que a empatia não nasce pronta; ela se constrói. Porém, quando falha a construção — quando a escola não sustenta, quando a família se ausenta, quando a cidade vira cenário e não casa — a pulsão encontra atalhos sombrios. A violência contra o animal é, muitas vezes, um ensaio geral do que pode vir a ser a violência contra o outro humano. Não por determinismo, mas por contágio moral. Orelha foi o alvo possível de uma brutalidade que circula, que pede palco, que testa limites.
E aqui é preciso dizer com todas as letras: uma comunidade que naturaliza a morte de um cão comunitário está treinando a própria indiferença. Orelha era o sintoma visível de uma saúde coletiva mínima — e sua ausência escancara a ferida. Há uma ética do cuidado que não se aprende em manuais; aprende-se no cotidiano, ao proteger o vulnerável. Quando falhamos nisso, o laço social afrouxa. A cidade fica mais fria. O mar continua belo, mas o chão perde o sentido.
Não se trata de linchamento moral dos adolescentes — isso seria repetir a violência sob outra máscara. Trata-se de clamor por responsabilidade, por medidas socioeducativas que eduquem de fato, por políticas públicas que reconheçam a adolescência como travessia e não como descarte. Trata-se de exigir que a lei seja firme e que o cuidado seja radical. Porque punir sem compreender produz reincidência; compreender sem responsabilizar produz impunidade.
Orelha, com sua orelha torta e seu caminhar antigo, nos ensinou que pertencimento é verbo. Agora, sua ausência nos convoca a conjugar esse verbo no plural e no presente. Que discussão queremos sustentar? A que reduz o caso a manchete passageira, ou a que transforma a dor em mudança concreta? A que terceiriza a culpa, ou a que assume a tarefa de reconstruir o tecido ético da cidade?
Que este texto não seja descanso, mas incômodo. Que o leitor sinta o latido que não ecoa mais e perceba o vazio como responsabilidade compartilhada. Orelha não volta. Mas a pergunta fica, insistente como maré: que tipo de comunidade escolhemos ser quando ninguém está olhando — e quando um cão, que era de todos, já não pode mais nos lembrar?