Há uma prece que não ajoelha: caminha.

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Ela atravessa a rua comigo, entra no ônibus lotado, senta à mesa simples onde o pão é pouco, mas é partilha. Não pede luxo, pede escudo. Não implora aplauso, pede silêncio contra a inveja, muro contra a língua ferina, luz contra a sombra que os outros insistem em lançar.

Eu creio num Deus que protege no riso e sustenta no choro. Um Deus que não promete caminhos fáceis, mas afina os pés para o chão áspero da vida. Porque viver é ir e vir com o peito aberto, mesmo quando o mundo afia as facas da maldade alheia. E ainda assim escolher ser abrigo. Ainda assim decidir ser colo.

Há quem sobreviva endurecendo. Eu discordo. A verdadeira força é permanecer quente num mundo frio. É oferecer abraço quando o nó da existência aperta o outro até faltar ar. É ser exemplo não por pureza, mas por insistência: insistir em não devolver ódio, insistir em não espalhar o que machuca, insistir em cuidar.

Que me livrem das energias podres, sim, mas que não me roubem a ternura. Que me protejam dos que torcem contra, sem me transformar num ser amargo. Porque vencer não é calar o inimigo; é não permitir que ele nos molde.

Sonho com mesas cheias não de excesso, mas de presença. Com chamas acesas não pelo medo de apagar, mas pela alegria de iluminar. Um mundo melhor não nasce dos gritos, nasce das mãos que repartem o pão diário e dos passos guiados por algo maior que o próprio ego.

Essa é a fé que escolho: vigilante, afetuosa, radicalmente humana. Uma fé que anda comigo — e, andando, transforma o caminho.

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