No coração do cosmos, a mente humana treme — o palco é a própria existência

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Entre as paredes claras de uma sala que parece sujeito e objeto ao mesmo tempo, a crônica respira: Freud e Lacan não se enfrentam apenas com palavras, mas com memórias, silêncios, lacunas e a respiração inquieta de quem pensa.

Freud chega primeiro, com a gravata desafinando o estojo de memórias. Ele não é apenas uma voz do passado; é a memória que não se cala, o fogo que não se apaga. Seu rastro é uma trilha de lembranças: sonhos que são mapas, pulsões que são rios subterrâneos, lembranças que emergem como peixes luminosos no escuro da água. Cada neurônio parece um tambor, cada desejo uma língua que não se cala, cada imagem uma casa antiga onde o visitante insiste em bater à porta. Ele aponta para o id como quem aponta para o corpo inteiro, esse território que não se deixa domesticar pela razão, esse fogo que, mesmo contido, não dorme.

Lacan entra em seguida, com o rumor da linguagem já na saliva e no ar. O sujeito, para ele, não é uma ilha, mas um arquipélago de palavras, uma casa de linguagens que se refaz a cada fala. O “parlêtre” não é figura de estilo; é a máquina de fabricar o eu: a fala que constrói, a falha que revela, o eco que trai o que ainda não se reconhece. A falta, para Lacan, não é vazio a ser preenchido, mas presença que se destaca no horizonte, inalcançável e irresistível. O Outro, esse vasto espelho, é quem nos faz dizer “eu” apenas depois de ouvir, de sentir a sombra do que não se pode possuir.

E o salão respira — não como palco de duelo, mas como uma praça onde o tempo tropeça entre culpa e desejo. A fusão começa, não como acidente de laboratório, mas como uma dança de mãos que tentam construir uma ponte entre dois modos de pensar que, em essência, se tocam sem se ver de frente. Freud mergulha nos sonhos como quem desce ao porão de uma casa antiga, onde a memória guarda objetos que ainda respiram. Lacan sopra símbolos como quem lança faróis em marés imprevisíveis, e cada palavra dita ou silenciada carrega o peso de um mapa que pode guiar ou desorientar.

O pensamento se parte, e aquilo que parecia sólido—o eu, o corpo, o tempo—passa a se desfazer em fragmentos que brilham como vidro sob a luz. Em meio a esse choro de fragmentos, emerge a constatação de que a mente é, antes de tudo, um campo de possibilidades: onde há uma pergunta, brota uma fissura; onde há uma lembrança, cresce uma moldura; onde há desejo, acende-se uma linha de fuga que aponta para o que não se pode possuir.

No auge, não há vilões nem heróis vencendo ou perdendo, apenas uma música dupla que insiste em tocar: o ritmo da pulsão que queima e o compasso da falta que chama. Freud brada: o conhecimento é poder; a pulsão é fogo que precisa de cômodo para arder. Lacan sussurra: o desejo não é possessão, é trajetória; a falta não é falha, é motor que nos faz seguir adiante. E o humano, nesse ouvir dual, se revela como cosmos em miniatura: cada pensamento um cometa, cada lembrança uma estrela que insiste em brilhar na noite interior.

Quando a cortina cai, o silêncio não é vazio, é plenitude. Freud e Lacan não se acomodam como vencedores de uma disputa; eles se tornam guias que apontam caminhos entre labirintos. E o leitor, ao atravessar a dobra da página, percebe que a mente não é arena para uma vitória definitiva, mas casa que se reconstrói a cada visita do medo, da esperança e da curiosidade.

Desse encontro surge uma lição simples e profunda: o humano é, ao mesmo tempo, fogo e sombra, riso e lágrima, memória e desejo. Não há domínio total sobre si, mas há uma beleza insolente em não deixar que esse domínio se imponha completamente. A linguagem, o símbolo e a memória não são apenas ferramentas; são modos de viver que nos tornam capazes de suportar a dúvida, de manter o sonho vivo mesmo quando a noite parece mais densa.

E no último suspiro do texto, o poeta que mora em cada um de nós reconhece: a vida é uma prática de enfrentamento. Enfrentamos a pulsão que nos diz “vai” e a falta que diz “não tenho”. Enfrentamos a memória que empurra para frente e o símbolo que nos impede de ver o que está diante dos olhos. Enfrentamos, enfim, a verdade de que viver é manter acesa a chama que pergunta sem cessar: quem sou eu neste labirinto?

Assim, a mente humana permanece sagrada e selvagem, uma tapestria de impressões que não se deixam prender por uma única teoria, por uma única voz. Freud e Lacan, cada um com seu timbre, acompanham-nos na respiração: o passado como mapa, o vazio como impulso, a fala como abrigo. E nós, leitores e habitantes dessa casa de espelhos, saímos com a certeza de que o duelo nunca termina realmente; ele se reescreve a cada pensamento, a cada sentimento, a cada sonho que ousamos sonhar de novo.

No fim, o que resta não é vitória nem derrota, mas uma trilha iluminada pela coragem de encarar o abismo sem desistir de olhar para dentro. Porque compreender o si mesmo é, em última análise, aceitar que somos obra em curso: uma crônica em construção, escrita com fogo, com silêncio, com palavras que duvidam, com palavras que desejam. E assim seguimos, habitando o eterno duelo do ser, com a cabeça erguida, a língua pronta e o coração atento ao próximo suspiro que a mente decide transformar em vida.


Dicas de leitura: 

BALZARINI, Marco Máximo. The unconscious in neuroscience and psychoanalysis: On Lacan and Freud. Routledge, 2024.

BASTOS, Maria do Socorro Furtado; DA SILVA, Rosana Macedo. REFLEXÕES SOBRE A IDEIA DE SUJEITO EM LACAN. Revista Hum@ nae, v. 19, n. 2, 2025.

MACHADO, Paulo Cesar. Constituição do sujeito entre Freud e Piaget: uma visão anti natural à luz da psicanálise. REVISTA DELOS, v. 18, n. 69, p. e5896-e5896, 2025. 

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