O poder ergue torres de bronze nas quais se refletem as próprias sombras

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No mapa gasto onde nunca houve chuva suficiente para limpar o pó das promessas, a guerra não é trem, nem canhões — é uma cidade que nasce no peito de quem decide. O poder ergue torres de bronze nas quais se refletem as próprias sombras: governantes que contam as próprias vitórias como quem lê uma lista de compras, cada item riscado com a firmeza de quem já sabe o que vai ganhar no fim, mesmo que o preço seja o silêncio dos que não podem falar.




O dinheiro caminha em silêncio, com passos pesados, como quem carrega o peso de uma arca cheia de promessas não cumpridas. É o capital que paga pela fúria, que transforma o medo em moeda, que transforma a fome em interesses. Existem guerras que começam com um cheque possível, com uma assinatura que parece apenas burocracia, e terminam quando o lastro se esvai e a terra queimada pede apenas uma gota de água. O dinheiro não escolhe os lados do mapa; ele escolhe quem se abre para recebê-lo, e o egoísmo, esse, tempera tudo com um toque de ironia: cada trincheira é uma vitrine onde se exibem homens que não se reconhecem, mas que reconhecem no brilho dos recursos a única medida de valor.



E o egoísmo, ah, o egoísmo é a música que embala o perdão em canções de uma noite longa demais. Ele sussurra aos vulneráveis que a força é saber esconder o que se teme, que a lealdade é apenas uma moeda de troca entre alianças que mudam de rosto conforme o vento. Na esteira da marcha, as ruas vão vazias, não por falta de gente, mas por excesso de desejos não confessados: o desejo de vencer, de possuir, de provar que o mundo se move ao redor de quem não teme o próprio abismo. Enquanto os canos de aço cantam, há quem conte a verdade em cifras: guerras são negócios de alto risco com retorno garantido apenas para os que não precisam medir perdas.




E ainda assim, entre as ruínas, surge a humanidade que não caberia no saldo, a paciência que não cabe nos gráficos, a memória que o dinheiro não compra. Porque a guerra, no fim, não é apenas o combate dos fortes contra os fracos, mas a batalha íntima de cada um para não esquecer quem sempre pagou a conta: o povo que ficou, que recifou o chão arrancado e, com o tempo, aprendeu a levantar, sem esquecer o peso do que foi perdido nem a verdade de que toda vitória, se não for para proteger algo que valha a vida, é apenas a repetição triste de um ciclo que ninguém mais deveria aceitar.




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